quinta-feira, novembro 04, 2010

Os Golpes - G (2010)



Depois de um primeiro álbum intitulado Cruz Vermelha Sobre Fundo Branco (2009), os Golpes surgem agora com este projecto mais pequeno em termos de duração, mas nem por isso em termos de qualidade. Com cantigas assentes na história e cultura portuguesa, bem como no Portugal de hoje, temos letras que "andam de mão dada" com uma musicalidade instrumental já tão distinta dos Golpes. É sem surpresa que vejo o grupo com uma identidade própria... aliás, no concerto de apresentação do G (2010), acompanhado por um amigo, este comentou comigo o facto de pudermos fechar os olhos e automaticamente saber o que estamos a ouvir. Isso só por si é um feito!

Se me questionarem sobre qual dos dois álbuns prefiro, teria de dizer o primeiro pois gosto de todas as faixas quase de forma igual, contudo, gosto antes de pensar nos dois como uma unidade.

Tornei-me fã deste G, com tempo e dedicação pois no inicio não teve"aquele" impacto brutal que esperava. Posso-vos dizer que foi por isso mesmo que este post demorou a surgir... Sabia que iria desenvolver um maior grau de empatia!

Tenho ouvido o G e ainda tive a oportunidade de ouvir os seus temas ao vivo... naturalmente formulei uma opinião, a meu ver, descartável, por ter noção que estaria sempre na eminência de sofrer algumas transformações. Certo e sabido, assim aconteceu!

O seu single de apresentação, Vá Lá Senhora, é uma grande malha, acompanhada por um vídeo pelo qual nutro bastante simpatia (muito ao género de um anuncio "Superbock"). A participação de Rui Pregal da Cunha (antigo vocalista do grupo Heróis do Mar) acrescenta não só outro tom como também outra mística, pois trata-se de um símbolo do rock português dos anos 80, num claro gesto de passagem de testemunho (pelo menos assim gosto de pensar).

Mas é Território Justo e Tenho Barcos, Tenho Remos que considero serem (além de Vá Lá Senhora) as faixas mais fortes.

A primeira é fenomenal, com uma letra que a mim me diz muito e com um momento que acho delicioso (farei o meu melhor para tentar explicar): quando chega a parte "mas tu já estavas a sangrar..." e entra a segunda voz... isto para mim é sublime! Posso ser o único a partilhar esta opinião... mas mexe imenso comigo! A vontade é cantar de "pulmão cheio" e suster as notas como quem procura que aquela sensação perdure por mais tempo.
Infelizmente não consigo explicar melhor que isto... é daqueles momentos que "se sente", mas explicar torna-se tarefa difícil.

Já a segunda, é a adaptação de um poema com o mesmo nome, de Zeca Afonso. Curiosamente faz-me sentir mais Português! Talvez porque de certa forma evoque os Navegadores e o tempo dos descobrimentos... talvez pela homenagem a um ícone da cultura portuguesa... talvez pelo aproveitamento de uma arte onde o "Português" é especialista desde que há memória (a poesia)... talvez pela magia presente dos trovadores...

Campo de Santa Clara e O Amor Separar-nos-á (na minha óptica) já ficam um pouco aquém das já mencionadas...

A primeira, não me aquece nem arrefece. Vive de pequenos momentos! Principalmente com as guitarras na recta final...
Na segunda a entrada não me cai bem, mas até ao final a própria faixa parece acabar por se "redimir", concluindo em grande estilo!

No que toca o instrumental, se comparados, prevalecem os do primeiro álbum, mas quem sabe... talvez o "novo" venha a crescer...

Conclusão: Tendo eu (e os próprios Golpes) colocado a fasquia bastante elevada, acho este G bom pelo simples facto que demonstra a continuidade do grupo bem como a sua aptidão em fazer boa música.

Apesar das inevitáveis comparações com o seu antecessor, continuam a exponenciar o bom que o "roque português" tem para oferecer...

Avé Amor Fúria!
Avé Os Golpes!



Se resultou inútil o amor,
se a semente não geminou,
procuro então território justo,
para lá da fronteira da dor

Os caminhos que eu percorri...
da Beira ao Minho...
Eu percorri ... atrás de ti...
Para te ferir, para te moldar....
mas tu já estavas a sangrar...
tu já estavas a sangrar...

Os caminhos que percorri...

da Beira ao Minho...
Eu percorri... atrás de ti...

Para te ferir, para te moldar....
mas tu já estavas a sangrar...
tu já estavas a sangrar...

Pelo caminho de ferro
pela vereda regional
elevas-te és o penedo
lugar do meu salto mortal... 

(Território Justo)



Tenho barcos, tenho remos
Tenho navios no mar
Tenho amor ali defronte
E não lhe posso chegar

Tenho barcos, tenho remos 
Tenho navios no mar
Tenho amor ali defronte
E não lhe posso chegar.

Tenho navios no mar
Tenho navios no mar
Tenho amor ali defronte 
Não o posso consolar.  

Já fui mar já fui navio
Já fui chalupa escaler
Já fui moço, já sou homem
Só me falta ser mulher.
 
Já fui mar já fui navio
Já fui chalupa escaler
Já fui moço, já sou homem
Só me falta ser mulher.

Só me falta ser mulher
Só me falta... ser mulher....

 Já fui moço, já sou homem
Só me falta ser mulher.
Já fui moço, já sou homem
Só me falta ser mulher. 

 (Tenho Barcos, Tenho Remos)

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