sábado, fevereiro 13, 2010

Clareece P. Jones



Ontem desloquei-me ao CascaiShopping para ver o recém estreado Precious: Based on a Novel by Saphire (2009) do realizador Lee Daniels. Acompanhado por um amigo, ao entrar na sala reparei que inicialmente existiam apenas casais. Com os minutos a passar vi a sala cada vez a encher mais com diferentes tipos e grupos de pessoas. Grupos de rapazes, de raparigas, jovens e adultos e até um "grupinho"de "crianças" que de certa forma me levou a pensar que a visualização do filme estava condenada, pelo facto de que o seu conteúdo é bastante forte e talvez dificilmente compreendido por aquela baixa faixa etária que desde logo se fez notar quando entrou na sala de cinema pelo barulho e confusão. Mas surpreendentemente, nada se passou e é fácil explicar porque. De tal forma que o filme é intenso e bem realizado, as pessoas ali presentes ficaram imediatamente hipnotizadas pela excelente representação, argumento e pela realização tão bem executada.

Depois de um primeiro filme menos conseguido por parte do realizador Lee Daniels (o filme chama-se ShadowBoxer), este acabou por criar à volta do seu nome um grande nível de expectativa relativamente aos seus futuros trabalhos, dado à evidente qualidade desta sua obra. O tratamento que este material sensível recebe é de grande primor e criatividade. Inicialmente sem distribuidora, depois do Sundance Festival 09, rapidamente caiu nas graças da critica e audiência, tendo saído do próprio festival com ofertas de pessoas a quererem produzir e distribuir a longa-metragem. Na lista de doze produtores constam os nomes de Tyler Perry e Oprah Winfrey, esta última tendo talvez alguma ligação emocional à história pelos casos surreais vividos no passado (mas isto não passa de especulação).
A história incide sob uma jovem afro-americana de dezasseis anos chamada Clareece Precious Jones (desempenhada de forma extraordinária pela estreante Gabourey Sidibe, nomeada para Oscar), que luta no seu dia-a-dia para ultrapassar os preconceitos ligados à sua obesidade, analfabetismo e cor da pele.  Como se não bastasse, a sua vida em casa é um pesadelo. O seu pai é ausente e (peço desculpa aos leitores mais sensíveis) um verdadeiro estupor que a molestou sexualmente em inúmeras ocasiões, tendo inclusive a engravidado por duas vezes. A mãe, desempenhada pela merecedora de Oscar Mo'Nique, personifica tudo o que está errado com a mentalidade e postura de pessoas provenientes do Ghetto com má formação.Cruéis, abusadoras, egocêntricas e infelizmente "psicologicamente abaladas" (para não usar um termo mais agressivo e talvez ordinário). A raiva que senti desta personagem, que de certa forma se viu expandir para uma dimensão um pouco mais humana, surgiu fruto de um poder de representação fortíssimo. Não me vou cansar de dizer isto, mas de facto Mo'Nique, conhecida pela sua ligação à comédia, têm um papel surpreendente que dificilmente deixará alguém indiferente. Não foi por acaso que é indicada como a principal favorita ao Oscar de Melhor Actriz Secundária. - entretanto peço desculpa pelo desvio de raciocínio - Apercebemos-nos que Clareece montou um sistema de defesa para fugir à realidade que vive através de sonhos. Basicamente ela esconde-se noutro mundo que se encontra mais perto dos seus desejos íntimos, no entanto, dificilmente consegue disfarçar aquilo que se passa no seu quotidiano praticamente desde que nasceu.
Todavia, apesar de todo este cenário tenebroso, existe luz ao final do túnel para Clareece, quando esta  inicia uma travessia num programa escolar especial onde encontra uma professora com um coração do tamanho do mundo, com quem cria desde logo uma grande afinidade. A professora de nome Ms. Raine é desempenhada pela a actriz Paula Patton que merece o meu reconhecimento pela genuinidade que transmitiu à grande mentora e amiga de Precious.
Já vinquei a minha opinião no que toca à qualidade do filme mas quero apenas constatar os seguintes momentos/acontecimentos... Nesta sessão de sala cheia foi interessante ver a partilha de sensações/sentimentos que ali se deu com suspiros de alivio, gargalhadas quando surgiam momentos mais leves para quebrar tensão, os Wow's de surpresa/choque e ainda o fungar dos narizes que indicavam o choro que para lá ia naquele espaço. Todo o filme foi feito com bastante inteligência com o intuito de proporcionar esta evocação de várias sensações em momentos separados para criar um balanço emocional do espectador e aguenta-lo até ao fim, revelando sempre que algo bom está ao virar da esquina. Um outro momento em concreto que adorei (Spoiler Alert)  foi a alusão ao neo-realismo italiano numa cena bem engendrada que evoca precisamente uma comparação entre a demonstração de realidades distintas em outros países e épocas. 

Recomendo que vejam este filme, embora não vos queira incitar a necessidade de o ver no cinema. Muito provavelmente tiraria outro proveito deste filme se me sentisse mais confortável na sala visto que este trabalho exige de nós um maior "conforto". É sempre um quanto pouco awkard estarmos com sentimentos à flor da pele, rodeados de estranhos por todo o lado...

Um comentário:

innername disse...

vi e gostei imenso (em casa, sem estranhos) e aconselho...mexe por dentro