quarta-feira, junho 02, 2010

Trainspotting (1996)


Já o tinha referido aqui que ainda não tinha visto o filme Trainspotting (1996). Como este, existem outros quantos filmes que são considerados milestones do cinema, que ainda não visionei. São demasiados para mencionar, sendo natural que haja uma série deles que evoquem comentários dentro da linha do "que escândalo!".

Meus caros, não que precise de me justificar, mas os que me conhecem sabem o gosto que tenho pela sétima arte e o tempo que lhe dedico. Tento ver o máximo de filmes, sempre que assim o seja possível. 

Enfim... dito isto, deixem que eu fale "sucintamente" sobre Trainspotting.

Já considerado um sucesso e até um clássico quando o vi, não foi com muita surpresa que constatei o soberbo retrato de um grupo de toxicodependentes, residentes em Edimburgo em finais dos anos 80.

Danny Boyle, o realizador por detrás desta longa-metragem, apresenta-se ao mundo como um visionário, de tal forma que executa esta adaptação de uma obra com o mesmo nome, do autor Irvine Welsh, de forma tão única, contrastando o "puro e duro" de uma realidade sinistra com temas como a redenção ou esperança. Pelo menos, esta é a forma como eu interpreto a acção, nomeadamente a transformação do protagonista desempenhado por Ewan McGregor.

Com esta sua interpretação, fico definitivamente rendido à sua qualidade enquanto actor. Eu que estivera na dúvida até à pouco tempo relativamente à questão se gosto dele ou não, confirmo agora a total dissipação  dessas mesmas dúvidas. Talvez tivesse eu começado a fazer uma retrospectiva da carreira de MacGregor com este filme, as coisas fossem ligeiramente diferentes, digo eu! É que de facto existe uma total transfiguração do escocês para representar um escanzelado e deprimido viciado em heroína, que reconhece e aceita a sua vida condenada aos prazeres, mas também dissabores proporcionados pela droga.

Falar apenas de Ewan, parece injusto, pois existem outras performances capazes de puxar o interesse e "afecto" do espectador. Aliás, na sua maioria, as personagens de maior destaque são todas muitos bem representadas, mas como qualquer outro que se senta no meio da audiência, tenho os meus favoritos. O sociopata Begpie, representado por Robert Carlyle, está simplesmente assustador. Em certo ponto, remonta um pouco para as figuras que Joe Pesci nos habituou em alguns filmes de Scorsese (Goodfellas em 90 e Casino em 95). Homens de violência, de choque, de mau feitio... frios, perigosos e sem qualquer tipo de respeito pela vida humana.

Inicialmente fez-me um bocado confusão ver Carlyle neste papel, porque apesar dos vários filmes onde até faz de vilão (The World is Not Enought (1999) ou Hitler: The Rise of Evil (2003)) é difícil para mim dissociar o actor de desempenhos integrados num panorama mais ligado à comédia como Formula 51 - é o comic relief - ou Full Monty (1997).
Destaque também para, na altura, estreante Kelly Macdonald. Nem todos se podem dar ao luxo de afirmar que iniciaram uma carreira de sucesso com filmes como Trainspotting.

Escusado será dizer que o filme foi muito bem recebido pela critica e audiência em geral, apesar do conteúdo por vezes gráfico, que pode por vezes chocar de tal forma a audiência criando um sentimento de repulsa perante a obra.

Vários dos seus componentes já se tornaram "de culto"... a narração inicial com o monologo Choose Life, os diálogos, as alucinações ou banda-sonora. Esta última está num nível equivalente ao filme todo, ou seja, está estupendo.

Dominada por temas rock dos anos 80 (Iggy Pop, Primal Scream, New Order, David Bowie, Joy Division), existem também traços de música electrónica e dos anos 90.
Dentro desta densa compilação, sinto-me tentado a dar maior ênfase a dois temas, no qual para mim reside a força do filme... falo evidentemente de Born Slippy dos Underworld e Perfect Day de Lou Reed. Esta última, magnificamente bem integrada na cena onde se faz ouvir, com uma mensagem apropriada aos eventos ocorridos à personagem principal. You Reap What You Sow, cantado por Lou Reed, é basicamente uma chamada de atenção por parte do cantor, que poderá se aplicar às pessoas que deambulam por aquela vida de pecado, mas também aos que se encontram presentes do outro lado a ver o filme. É um, de vários pontes pertinentes, que deverá suscitar alguma vontade em nós de reavaliar a nossa vida, como forma de tomar consciência das nossas falhas/problemas. Claro que os nossos problemas muito provavelmente não terão nada que seja comparável à situação do grupo de viciados, mas mais do que fazer essa comparação, o importante é ajustar/adaptar essa necessidade de reavaliação num contexto global.

Desde ontem... sinto-me ainda mais rico... é só o que vos digo!

Um comentário:

Filipe Tavares disse...

Now that's a fucking dancer