sexta-feira, março 12, 2010

A Single Man (2009)


Estava à muito para ver este filme! Aguentei a ânsia enquanto pude mas (felizmente) cedi. Por incentivo de um amigo meu que me avisou para o facto de que a visualização desta obra perderia caso não fosse visto numa sala de cinema, não hesitei em deslocar-me no dia seguinte ao El Corte Inglês. Não fazia ideia do que se tratava, mas desde o primeiro momento em que vi o trailer fiquei rendido. Este não diz rigorosamente nada sobre a história ou as suas personagens, mas é tremendamente poderoso! Os clips/imagens seleccionados em combinação com a música, que parecia fundir-se na perfeição com o que estava a ver, deixava-me intrigado. De tal forma, que o vi vezes sem conta sempre que podia. Parecia tudo tão belo e misterioso, como algo que guarda um segredo de grande importância. Por entre a música assombrosa de grande nível, as imagens, todas elas de uma ordem estética do mais elegante que há e as citações de alguns críticos/revistas de renome, é dificil o trailer não nos tocar de alguma forma. O seu impacto em mim foi avassalador. A música tocava na minha cabeça o dia todo e sempre que a sentia desvanecer, iria mais uma vez ver e ouvir a "apresentação" de forma a que esta permanecesse mais fresca na minha memória. Entre as reviews escolhidas para "resumir" o filme ou os desempenhos dos actores, todas elas bastante elogiosas, há uma que se destaca de forma evidente e que mais intrigado/curioso me deixou:

His performance is bound to win attention in this year's Oscar race -
He's just to good to be ignored !

(Owen Gleiberman acerca de Colin Firth, in Entertainment Weekly)

Fiquei radiante! Algo me dizia que Colin Firth apresentava um talento fora do comum, mas que nunca tivera grandes hipóteses de o evidenciar. Tinha chegado a altura onde o iria ver transcender-se de uma forma magistral... e assim aconteceu! Fez jus ao que tanto disseram da sua performance, e sinceramente, acabaram de "condenar" o Jeff Bridges na minha mente, pois serei muito exigente com ele quando vir Crazy Heart (2009), para qual ganhou o Oscar na categoria de Melhor Actor Principal.

A Single Man (2009), filme baseado numa obra com o mesmo nome, de Christopher Isherwood, marca a estreia do estilista americano Tom Ford por detrás das câmaras. A história anda em torno de um professor de língua inglesa chamado George Falconer (desempenhado por Firth) que luta para dar um rumo à sua vida depois da morte acidental do seu companheiro/amante, Jim (Mathew Goode). Passado em Los Angeles no dia 30 de Novembro de 1962, um mês exacto depois da "Crise dos Misseis de Cuba", podemos denotar que reina uma onda de alivio que ainda não oferece grande estabilidade, dado as marcas deixadas pela "crise" que transpõem-se num dia-a-dia vivido no medo. Medo esse que se instala nas coisas mais banais, mas que é totalmente alheio à personagem de Colin Firth. Este está desligado por completo, pois o seu medo é outro. Solidão! Perdera o seu amante, companheiro à mais de dezasseis anos, e todos os dias era uma luta incansável para combater o luto, a tristeza, a falta de amor e reconhecimento. Por detrás do seu ar impecável e arrumado, passando a barreira  intelectual que leva ao conhecimento de que na verdade é amável, bem educado, em suma, um gentleman... está um homem que desesperadamente procura refúgio em memórias passadas de outros tempos onde Jim ainda estava vivo. Surgem ínfimos diálogos, todos cobertos por uma textura de grande eloquência que de alguma maneira denunciam que foram adaptados de uma obra literária. Não quero de todo dizer isto num mau sentido. É certo que existe um estilo de escrita literário e outro cinematográfico... e não saber dizer o que foi usado na integra e o que foi adaptado é simplesmente fantástico. Isto porque todas as palavras usadas são de um óptimo bom gosto. Conversas interessantes, quase poéticas, socorridas muitas vezes por trocas de olhares, gestos ou mesmo pela ausência de movimento (quando só a música basta para fazer a diferença), não parecem de todo forçadas ou demasiado trabalhadas. Nada pior do que por vezes denotar-mos a prática de frases retiradas de um livro. Soa mal quando dito em voz alta, pois são sentenças que não usamos no nosso discurso verbal. Mas aqui não é o caso. Todo o léxico empregue é suave e delicado que se enquadram a quem as recita. É absolutamente maravilhoso. Quase me considero um ser infeliz por não ter lido a obra de forma a também eu poder dar uso às minhas palavras em vez de recorrer a opiniões de terceiros na constatação do quão fabulosa é esta adaptação (perdoem-me esta hipérbole, it's just to state a point). A evolução da história e todos os seus intervenientes é de grande primor, chegando depois a um desfecho de grande simbologia enriquecedora.

Tom Ford certifica-se de proporcionar ao espectador uma experiência visual absolutamente extraordinária, onde os planos e jogo cromático não são deixados ao mero acaso. Cada ângulo, cada plano, mudanças de cores, sombras e textura são de vital importância na narrativa, na intensificação de sensações por parte da audiência e na percepção de ideias. Todo o vestuário, adereços, maquilhagem, penteados, etc são de um requinte nunca antes visto. Tom Ford terá porventura aplicado o seu conhecimento e bom gosto enquanto "homem do mundo da moda" ao tratamento sublime que este filme sofreu em todos os seus campos. A fotografia, os flashback e todos outros momentos e detalhes técnicos que são demasiados para serem enunciados na sua totalidade são de um requinte e classe de cortar a respiração. E digo isto de uma forma literal, pois foram vários os momentos em que ficava vidrado no ecrã tal era a beleza estética evidenciada  "esquecendo-me" de respirar.

O casting é maravilhoso! Colin Firth é aqui sinónimo de classe, cavalheirismo, elegância, bom gosto e intelecto trabalhado, tudo sem calor nem vida depois da morte de Jim. É nos permitido através da realização de Ford e do desempenho de Firth constatar as diferenças no estado psicológico de George, mesmo tendo por base o uso de cores que reflectem muitas vezes o estado de espírito da personagem central.
Julianne Moore, que representa Charlotte, a melhor amiga de George é a representação de uma fachada. Uma mulher que mergulha no álcool para evitar a realização da sua vida triste, que apenas encontra algum conforto nos seus rendez vous com George (mais não direi de forma a evitar spoilers).
Mathew Goode e Nicholas Hoult, representam Jim e Kenny Potter respectivamente. Dois homens de tempos e fases diferentes que transportam alguma esperança para o coração de George Falconer.
Por entre os actores mencionados, fora outros que dão o seu contributo ao filme, sejam eles relevantes ou não, concluímos que são todos pertencentes de um mundo de "gente bonita". Adónis e Vénus espalhados por todos os cantos, como se de uma passerelle se trata-se! E ao contrário do que às vezes vemos numa série onde até o padeiro e a senhora da caixa são modelos e dizemos "Que ridículo", aqui é tudo credível. Não dava para ser de outra forma!

Quero concluir com a banda-sonora! Composta por Abel Korzeniowski, em colaboração com Shigeru Umebayashi, a sua música acrescenta uma dimensão emocional à longa-metragem, intensificada ainda mais pelo desempenho de Firth e pela visão única de Tom Ford. São muitas as vezes que faço reparos a bandas-sonoras, no entanto, são poucas as vezes que as procuro obter nos casos onde dominam composições orquestradas em prol das habituais playlists de cantores/grupos. Esta é distinguida como uma das mais bonitas que ouvi, contribuindo sistematicamente para o sucesso de cada cena em que se faz ouvir.

CONSENSO

 A preguiça por momentos falou mais alto! Deslocar-me a Lisboa de propósito parecia um sacrifício, mas constato que esse sacrifício a triplicar seria perfeitamente ajustado dado a "recompensa final".
Pudera eu voltar atrás na selecção dos melhores filmes de 2009, pois este estaria presente com louvores. Um trabalho perfeito pelo estreante Tom Ford, que considero ter sido injustiçado pela sua não inclusão nos nomeados para Melhor Realizador e Melhor Filme, pois para mim seriam sérios candidatos a levar o prémio para casa, tendo em conta todos os pontos mencionados onde esteticismo ímpar aplicado na longa-metragem se apresenta como o seu ponto mais forte, apenas ultrapassada pela performance inesquecível de Colin Firth, aliado à sempre magnifica Julianne Moore, que dão corpo e alma a personagens de uma complexidade que duvido muito que sejam criadas e desempenhadas com a mesma qualidade in times to come.

Segue-se então o trailer, disponibilizado num formato maior do que normalmente costume por, na tentativa que tenha um impacto grande. Recomendo que tenham o volume consideravelmente alto para se deixarem mergulhar na elegante sonoridade.

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