quarta-feira, outubro 13, 2010

"A Queda de Murdock"

Os que me conhecem sabem que sou apreciador de bandas-desenhada! Embora nos dias que correm não seja propriamente um leitor assíduo, continuo a manter uma ligação forte com algumas personagens que ainda sigo. Esse "seguimento" tem surgido  através do cinema que, como todos nós sabemos, tem apostado cada vez mais neste sector, contudo, de tempo em tempo faço pesquisa e deparo-me com artigos de algum interesse. Assim aconteceu com o texto que se segue, que surgiu inesperadamente durante um dia de trabalho. A personagem em foco é o Matt Murdock ou Daredevil como muitos de vocês provavelmente já ouviram falar.



A par de Watchmen e o Cavaleiro das Trevas postos à venda no mesmo ano de 1986, existe uma outra maravilhosa obra da banda desenhada norte-americana com o nome “A Queda de Murdock”.
Também ela um projecto saído de uma das melhores duplas de sempre neste campo, Miller e Mazzuchelli, “A Queda de Murdock” foi a melhor peça escrita e desenhada para alguns dos menos interessantes heróis desse género.

O Demolidor, um super-herói cego mas com todos os outros sentidos elevados a níveis sobre-humanos por um acidente com lixos radioactivos enquanto criança, alguém que supostamente por isso não teria medo. Miller foi por outro caminho.
A figura principal dessa história é o advogado cego Matt Murdock e não, como seria natural, o seu alter-ego Demolidor (Daredevil) mas o que realmente é de recordar nessa obra é que o super-herói está praticamente ausente até ao último capítulo.

A história explica-se em poucas linhas; Uma ex-namorada do advogado Matt Murdock, viciada em droga vende a sua identidade secreta em troca de uma dose, essa informação atravessa o país até chegar às mãos do Kingpin, o chefe da maior organização criminosa da nação americana e este, metódica e friamente, destrói a reputação, a vida e por fim a sanidade do advogado culminando numa tentativa de assassinato. Note-se que em nenhuma altura existe a menor vontade em denunciar a identidade do advogado, a ideia é destruir o homem atrás do mito.

Ao longo de páginas magistralmente desenhadas, Mazzuchelli fê-lo num estilo que era muito diferente para a época e que era fortemente influenciado pelo cinema negro e com forte realismo, Frank Miller vai descrevendo a lenta e inexorável destruição de um homem normal e cujos defeitos são cada vez mais evidentes. A sua ex-namorada era afinal mais uma baixa na vida de um advogado de sucesso sem tempo e disposição para se preocupar com os que lhe estão próximos, que quebra facilmente quando se vê privado dos confortos de uma boa casa, dinheiro no banco e amizade incondicional.

Outro dos elementos originais para a época é que os personagens secundários carregam boa parte da história, a ex-namorada e estrela acabada de filmes pornográficos que vende Matt por uma dose, o melhor amigo que ele abandona, o vilão obcecado pela destruição de um homem decente, o jornalista que relata a queda do homem à cidade e por fim e numas brevíssimas páginas a abordagem genial do mais unidimensional dos super-heróis, o patriótico Capitão-America, alguém que se sente completamente só num país que esqueceu os valores presentes na sua fundação e que viola o seu mais sagrado símbolo: a bandeira que lhe serve de uniforme.

Matt Murdock deixa de poder exercer a sua profissão, é privado dos seus bens e segurança, perde amigos e acaba paranóico até ao momento em que escapa ao seu assassinato por pura força de vontade, afinal o seu grande super-poder. A vontade de ultrapassar obstáculos, da infância pobre, o pai ex-boxeur alcoólico e a ausência da mãe, a cegueira precoce e no fim o medo de perder o que entretanto conseguira. Reduzido a um homem sem nenhuma esperança surge então o homem sem medo e que pode finalmente vestir o uniforme e assumir o seu papel.
Não deixa de ser curioso.

(Fonte: geracao-c)

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